A gente pode ver o reflexo do outro refletido na gente.
O problema, o único, talvez, é saber como seguir sem as
cicatrizes do passado. Dizem que o presente é o que importa, mas nós somos um
conjunto de memórias e expectativas. A gente anseia que as pessoas sejam como
queremos que elas sejam.
A gente se frustra.
Somos todos tristes e solitários. Não há mais festas de
solstícios. Não há mais danças coletivas em bailes londrinos.
Pelas esquinas queremos NOSSA felicidade. Uma alegria
individual e abstrata, sozinha, prazer não compartilhado.
Não há mais senso de dever.
Não há mais vontade de família.
Buscamos um prazer funesto.
Fingimos que somos felizes. Tentamos ser os espelhos.
Politicamente corretos. Politicamente esclarecidos. Politicamente coerentes.
Politicamente gentis.
Queremos amar o desconhecido.
E nos esquecemos de amar nossos próprios pais.
A gente nem liga para o português. Gramática para que? Eu
quero é sentir. Eu quero é ser livre.
Lutar contra padrões tornou-se um padrão.
Mas a liberdade é responsável. Sou agente inexorável do meu
destino. Tudo o que faço tem resultado, e este resultado é o que mereço. Bom ou
ruim.
Não somos iguais.
Erramos igualmente.
Amamos igualmente.
Odiamos igualmente.
Esquecemos que não somos iguais igualmente.
Não sou espelho. Ninguém é espelho. O que vejo refletido é
apenas um anseio do que não sou.
Estamos perdidos. Somos insignificantes. A ciência mostrou
que poeira é a maior verdade bíblica. Somos pó, e ao pó voltaremos um dia.
Todos. Ninguém é exceção. Ninguém é especial.
Ainda assim, não somos iguais.
Somos um paradoxo.
Somos essencialmente comuns, viemos do mesmo lugar.
Somos diferentes. Temos rostos, olhos, gostos, gestos,
pensamentos, amores, dores, remorsos, alegrias, memórias, saudades... Nada é
igual.
Exageramos. Vivemos o século do exagero.
Sexo explícito. Amores livres. Afeto. Afeto. Afeto. Estamos
todos afetados pela era dos desejos ilimitados, pelo fim das barreiras, e da
paciência.
Houve um tempo em que segurar as mãos era a maior prova de
afeição.
Ainda houve quem ousasse esclarecer por música. Sexo não é
amor. Amor não é desejo.
Mesmo assim, vivo na geração dos amores livres. Não há
limites para o que sinto e não penso que sentir seja errado. O que é errado?
Relativizemos tudo.
E já nada existe.
Não há mais concreto.
Não há mais mãos para segurar.
O reflexo do espelho é a compulsão do século XXI. De tão
livres, estamos todos aprisionados.
Nardejane Martins
Cardoso,
Fortaleza, terça-feira, 16 de agosto
de 2016, 20:10.
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