terça-feira, 16 de agosto de 2016

Mundo dos espelhos

A gente pode ver o reflexo do outro refletido na gente.

O problema, o único, talvez, é saber como seguir sem as cicatrizes do passado. Dizem que o presente é o que importa, mas nós somos um conjunto de memórias e expectativas. A gente anseia que as pessoas sejam como queremos que elas sejam.

A gente se frustra.

Somos todos tristes e solitários. Não há mais festas de solstícios. Não há mais danças coletivas em bailes londrinos.

Pelas esquinas queremos NOSSA felicidade. Uma alegria individual e abstrata, sozinha, prazer não compartilhado.

Não há mais senso de dever.

Não há mais vontade de família.

Buscamos um prazer funesto.

Fingimos que somos felizes. Tentamos ser os espelhos. Politicamente corretos. Politicamente esclarecidos. Politicamente coerentes. Politicamente gentis.

Queremos amar o desconhecido.

E nos esquecemos de amar nossos próprios pais.

A gente nem liga para o português. Gramática para que? Eu quero é sentir. Eu quero é ser livre.

Lutar contra padrões tornou-se um padrão.

Mas a liberdade é responsável. Sou agente inexorável do meu destino. Tudo o que faço tem resultado, e este resultado é o que mereço. Bom ou ruim.

Não somos iguais.

Erramos igualmente.

Amamos igualmente.

Odiamos igualmente.

Esquecemos que não somos iguais igualmente.

Não sou espelho. Ninguém é espelho. O que vejo refletido é apenas um anseio do que não sou.

Estamos perdidos. Somos insignificantes. A ciência mostrou que poeira é a maior verdade bíblica. Somos pó, e ao pó voltaremos um dia. Todos. Ninguém é exceção. Ninguém é especial.

Ainda assim, não somos iguais.

Somos um paradoxo.

Somos essencialmente comuns, viemos do mesmo lugar.

Somos diferentes. Temos rostos, olhos, gostos, gestos, pensamentos, amores, dores, remorsos, alegrias, memórias, saudades... Nada é igual.

Exageramos. Vivemos o século do exagero.

Sexo explícito. Amores livres. Afeto. Afeto. Afeto. Estamos todos afetados pela era dos desejos ilimitados, pelo fim das barreiras, e da paciência.

Houve um tempo em que segurar as mãos era a maior prova de afeição.

Ainda houve quem ousasse esclarecer por música. Sexo não é amor. Amor não é desejo.

Mesmo assim, vivo na geração dos amores livres. Não há limites para o que sinto e não penso que sentir seja errado. O que é errado? Relativizemos tudo.

E já nada existe.

Não há mais concreto.

Não há mais mãos para segurar.

O reflexo do espelho é a compulsão do século XXI. De tão livres, estamos todos aprisionados.

Nardejane Martins Cardoso,
Fortaleza, terça-feira, 16 de agosto de 2016, 20:10.

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