terça-feira, 30 de agosto de 2016

Por que se desconfia tanto das famílias na tarefa educacional?

Durante o último ano, eu tenho me dedicado à pesquisa sobre o “Homeschooling”, conhecido no Brasil como “Educação Domiciliar”. Trata-se de um tema controverso e com uma grande dose de polêmica, que me rendeu uma dissertação de Mestrado, e ainda me causa intensas inquietações e preocupações.

A minha vontade de pesquisar sobre o tema adveio do meu interesse pelo Direito de Família e da relação entre Estado e Indivíduos. Afinal, até que ponto os agentes estatais podem entrar em nossas casas, invadir nossas mentes e controlar o que podemos ou não fazer?

Nunca tive dúvidas dos meus receios quanto às intervenções do Estado, mas nunca cheguei a me declarar ideologicamente partidária de uma vertente política/econômica/social. Hoje, tenho quase vinte e seis anos, e acho que é preciso me posicionar ao menos quanto a algumas questões. Sou liberal (ufa, é quase como sair do armário).

Mas ressalto que ainda preciso ler e estudar muito, minhas convicções nunca foram estanques, e, nada impede que eu mude meus pensamentos. Atualmente, me declaro liberal.

Ou seja.

Eu acredito mais no indivíduo que no Estado. Acredito que o Estado é criação do indivíduo, para o indivíduo, e pelo o indivíduo. O problema é... Nossa criação revolta-se constantemente contra nós. Simplesmente, porque o Estado é abstrato, corruptível e tendencioso às intervenções exageradas.

Logo...

Eu quero que ele intervenha o mínimo possível.

Porque...

Eu acredito que as instituições privadas são mais confiáveis.

E uma dessas instituições é... TCHARAM!!!

A família.

Então, por que os pais/responsáveis não poderiam educar seus filhos diretamente?

Embora eu tenha utilizado o termo “Educação Domiciliar” em minha dissertação, creio que não seja a melhor forma de descrever a situação. Pode ficar no imaginário que os detentores do poder familiar/guarda/tutela estariam encarcerando seus filhos em casa e obrigando-os à uma espécie de culto conservador maligno ou realizando uma lavagem cerebral na cabeça das crianças, impedindo que eles conheçam a realidade.

Bem... Educação Domiciliar, ou Educação Familiar não é a alienação do mundo e negação da realidade às crianças ou adolescentes.

É uma modalidade de educação formal que prescinde da escola.

Nem sempre a escola foi a grande responsável pelo ensino e aprendizagem para formação profissional e cidadã. Ou atualmente, como aparenta no Brasil, a única capaz de formar criança e adolescente para ser uma pessoa completa.

Minha intenção nessa postagem é apenas refletir: por que desconfia-se tanto das famílias no Brasil?

Temos sérios problemas no setor de Educação em nosso país. Algo comum em quase todos os setores responsáveis pela efetivação dos direitos sociais. E, apesar de percebermos as falhas do sistema, não se credita que uma instituição secular, a família, possa desempenhar um papel mais relevante do que aparenta.

A Lei de Planejamento Familiar é de 1996 (Lei nº 9.263 de 12 de janeiro de 1996) <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9263.htm> nada fala sobre formas de incentivar a estabilidade familiar ou da importância para a formação e proteção da criança e adolescente. Quais as políticas públicas têm sido feitas para auxiliar as famílias no sentido de educação?

Fala-se em parcerias público-privadas no setor da construção civil e de serviços... Por que não se fala em parcerias entre a família e a escola?

Em 2016 foi criada a Base Nacional Comum Curricular um dos pressupostos para um Sistema Nacional de Educação, objetivo do Plano Nacional de Educação de 2014 (http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/inicio)...

Eu me pergunto quantas famílias, quantos pais, responsáveis puderam participar da formação desta base? Como um ente abstrato, o Estado pode saber o que é o melhor para a criança e o adolescente, e os pais, simplesmente, não.

Parte-se da ideia de que os pais/responsáveis possam ser nocivos. Que a escola permite a pluralidade. Será mesmo? Não seria isso um sofisma?

O que vejo é um clima de desconfiança, quando deveria existir a construção de parcerias. Afinal, o escopo dos círculos sociais – Família, Estado e Sociedade – é a proteção e o melhor interesse da criança e do adolescente, haja vista que estas pessoas estão em um período de desenvolvimento que necessita de maior atenção e ações dos adultos e das instituições.

Ano passado (12 de junho de 2015), o Ministro Luís Roberto Barroso, relator do Recurso Extraordinário 888.815 votou pela Repercussão Geral do pleiteado por uma família gaúcha do município de Canela, que intenta conseguir a possibilidade de ensinar seus filhos diretamente, sem a necessidade da frequência escolar (o voto foi seguido pela maioria dos ministros). Isso significa que o Supremo Tribunal Federal poderá tomar uma decisão que repercutirá em todas as famílias, sejam elas adeptas ou não do homeschooling. <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=293490>.

Em 2001/2002, o Superior Tribunal de Justiça também se deparou com um Mandado de Segurança n. 7407 que culminou numa maioria de votantes que não reconheceu a possibilidade dos pais educarem formalmente seus filhos.
<http://www.mp.go.gov.br/portalweb/hp/42/docs/ms-ensino_fundamental-7407_stj.pdf>.

“A escola é essencial...” Por quê? Quais são as razões histórias que tornaram as instituições escolares mais relevantes que a própria convivência familiar, na prática?

Esquecemos muito que o parágrafo único do art. 22 do Estatuto da Criança e Adolescente de 1990 <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm> estabelece que os pais possuem o direito de repassar sua moral, cultura, religião aos filhos, de forma responsável, sem atingir a dignidade...

"Art. 22. Aos pais incumbe o dever de sustento, guarda e educação dos filhos menores, cabendo-lhes ainda, no interesse destes, a obrigação de cumprir e fazer cumprir as determinações judiciais.Parágrafo único.  A mãe e o pai, ou os responsáveis, têm direitos iguais e deveres e responsabilidades compartilhados no cuidado e na educação da criança, devendo ser resguardado o direito de transmissão familiar de suas crenças e culturas, assegurados os direitos da criança estabelecidos nesta Lei." 

Provavelmente, mais de 3000 mil famílias têm adotado a educação direta, sem a necessidade da frequência escolar. Porém, não há um reconhecimento, e isso pode atrapalhar a inserção no mercado de trabalho. Há uma série de ações judiciais, porém, uma maioria que nega ou incrimina os pais que passam a educar formalmente seus filhos. <http://www.gazetadopovo.com.br/educacao/educacao-domiciliar-ganha-forca-no-brasil-e-busca-legalizacao-7wvulatmkslazdhwncstr7tco>.

Infelizmente, percebe-se que a família tem deixado de ser a protagonista da educação, inclusive da educação moral. Há uma desconfiança de que os pais possam ser verdadeiros generais, Pinochets, retrógrados, cegos pelo amor, incapacitados de realizar uma função inerente ao exercício de seu adjetivo: educar. 

Uma sugestão: que tal ao invés de confiar tanto no Estado e nas instituições por ele controladas e comecemos a confiar mais na iniciativa privada, na autonomia da família, que não é por enfeite que está como base da sociedade e como responsável precípua pelos direitos fundamentais da criança e adolescente?

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Mundo dos espelhos

A gente pode ver o reflexo do outro refletido na gente.

O problema, o único, talvez, é saber como seguir sem as cicatrizes do passado. Dizem que o presente é o que importa, mas nós somos um conjunto de memórias e expectativas. A gente anseia que as pessoas sejam como queremos que elas sejam.

A gente se frustra.

Somos todos tristes e solitários. Não há mais festas de solstícios. Não há mais danças coletivas em bailes londrinos.

Pelas esquinas queremos NOSSA felicidade. Uma alegria individual e abstrata, sozinha, prazer não compartilhado.

Não há mais senso de dever.

Não há mais vontade de família.

Buscamos um prazer funesto.

Fingimos que somos felizes. Tentamos ser os espelhos. Politicamente corretos. Politicamente esclarecidos. Politicamente coerentes. Politicamente gentis.

Queremos amar o desconhecido.

E nos esquecemos de amar nossos próprios pais.

A gente nem liga para o português. Gramática para que? Eu quero é sentir. Eu quero é ser livre.

Lutar contra padrões tornou-se um padrão.

Mas a liberdade é responsável. Sou agente inexorável do meu destino. Tudo o que faço tem resultado, e este resultado é o que mereço. Bom ou ruim.

Não somos iguais.

Erramos igualmente.

Amamos igualmente.

Odiamos igualmente.

Esquecemos que não somos iguais igualmente.

Não sou espelho. Ninguém é espelho. O que vejo refletido é apenas um anseio do que não sou.

Estamos perdidos. Somos insignificantes. A ciência mostrou que poeira é a maior verdade bíblica. Somos pó, e ao pó voltaremos um dia. Todos. Ninguém é exceção. Ninguém é especial.

Ainda assim, não somos iguais.

Somos um paradoxo.

Somos essencialmente comuns, viemos do mesmo lugar.

Somos diferentes. Temos rostos, olhos, gostos, gestos, pensamentos, amores, dores, remorsos, alegrias, memórias, saudades... Nada é igual.

Exageramos. Vivemos o século do exagero.

Sexo explícito. Amores livres. Afeto. Afeto. Afeto. Estamos todos afetados pela era dos desejos ilimitados, pelo fim das barreiras, e da paciência.

Houve um tempo em que segurar as mãos era a maior prova de afeição.

Ainda houve quem ousasse esclarecer por música. Sexo não é amor. Amor não é desejo.

Mesmo assim, vivo na geração dos amores livres. Não há limites para o que sinto e não penso que sentir seja errado. O que é errado? Relativizemos tudo.

E já nada existe.

Não há mais concreto.

Não há mais mãos para segurar.

O reflexo do espelho é a compulsão do século XXI. De tão livres, estamos todos aprisionados.

Nardejane Martins Cardoso,
Fortaleza, terça-feira, 16 de agosto de 2016, 20:10.